domingo, 27 de março de 2011

Os Olhos de Liz Taylor.


Acordo com uma melancolia difusa, uma pequena nota dissonante reverberando no peito. Como se uma das cordas da minha guitarra estivesse um pouco desafinada. Olhando-me no espelho momentos antes de lavar o rosto, descubro duas ruguinhas que não estavam ali ontem. Enquanto espremo o tubo da pasta de dente, numa tentativa quase inútil de encontar alguma pasta dentro daquele tubinho tantas vezes espremido e reespremido, distingo uma sombra inusitada no meu próprio olhar. Na pia jazem alguns fios de cabelo branco. Já na mesa do café, enumero mentalmente as razões que poderiam estar me causando aquela sutil melancolia matinal:

1- A anulação pelo STF da validade da Lei da Ficha Limpa nas eleições do ano passado. Hum. Por que razão, excelsas excelências? Não, não precisam explicar. Eu só queria entender. Sinceramente, admito minha insensibilidade, não me dou mais ao trabalho de compreender as obscuras razões por trás das intrincadas decisões de nossos ministros, políticos e governantes.

2- Os níveis de radiação nuclear no Japão continuam preocupantes. Mas eu já sabia disso ontem e, admito minha insensibilidade, não estou tão preocupado com os problemas dos japoneses.

3- As inevitáveis mortes de civis acarretadas por esses duvidosos ataques aéreos “cirúrgicos” à Líbia. Sim, são lamentáveis mas, admito minha insensibilidade novamente, não estou mobilizado com essa questão, ou com qualquer outra. Estou me tornando um insensível, é verdade.

Mas ao abrir o jornal, lá estava a foto. Compreendi de repente o motivo da minha pequena depressão matinal (e a razão das notas desafinadas que continuavam soando no meu cérebro). Eles me fitavam translúcidos, como duas pérolas a indicar que a vida é um sonho muito fugaz e passageiro porém infinitamente belo. E trágico.

Os olhos de Liz Taylor ainda conseguem me sensibilizar.

Por Tony Bellotto

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Esta cena com Jece Valadão e a belíssima Norma Benguell, precede o primeiro nú frontal do cinema brasileiro, realizado por Norma Benguell. O filme foi interditado pela censura. Canção do filme com o mesmo nome de 1966. Gigliola era a atriz principal. Estrelando: Charlton Heston, Jack Hawkings, Haya Harareet, Stephen Boyd. Oscar da Academia em 1959. http://www.youtube.com/watch?v=CpZjvbSC9

O cinema mudou?

Na minha infância e adolescência assisti muitos filmes, principalmente no Cine Eldorado, fossem os mais recomendados pela crítica, os candidatos ao Oscar, aqueles interpretados pelos meus atores e atrizes preferidos. Nesse último caso, lembraria Audrey Hepburn em Bonequinha de Luxo (1961), com uma toalha enrrolada na cabeça depois do banho, seus dedos tocando suavemente um violão. Ela tinha aquelas bochechas de porcelana, aquele queixo afilado, aqueles olhos castanhos, Cary Grant, este talvez o melhor ator de cinema de todos os tempos, era capaz de encarnar o bem e o mal simultaneamente, Gregory Peck, Marlon Brando, Gary Cooper (em Matar ou Morrer, 1952, quando aparecia na tela, transformava todos os outros em apenas coadjuvantes que desapareciam do seu lado), Clint Estewood, Burt Lancaster, Mia Farrow, os velhos, mas excelentes atores ingleses, para citar apenas estes. O que mudou na verdade foi o cinema, ou melhor, os filmes atuais, os atores são apenas fortões e posudos. Os filmes de grandes sucessos de bilheteria são com os garotos bruxos, vampiros que estão na moda, efeitos especiais exagerados, etc. E onde estão os grandes atores e filmes sérios? (Marcelo)